CONDUÇÃO
FALSO MITO - VERDADE

A condução é proporcional à qualidade do par. A condução depende de raciocínio rápido, "timing", e velocidade de reação (muito além do "dançar bem"). Para o homem, não basta conduzir certo: tem que conduzir certo na hora certa. A dama não é adivinha, mas tem que ser perspicaz.
A condução é dada pela mão direita do homem. Pela mão direita e muito mais: pernas, intenção e direção, enfim, toda uma dinâmica. Até um olhar pode determinar uma completa mudança no padrão de movimento.
Os braços... Salvo exceções, braços firmes, mas nunca rígidos. As mãos, sempre fechadas, devem se tocar como num aperto de mão. A mão direita do homem, fixa a maior parte do tempo, situa-se entre o meio das costas e a ponta inferior da omoplata esquerda. Não enlaçar a mulher nem apoiar a mão na lombar ou no quadril.
A dama, sem deixar dedinhos para cima, deve apoiar a mão entre o ombro direito e a porção superior da omoplata direita do homem. Nunca abraçá-lo ou segurá-lo no pescoço.
Deve-se começar com os pés frente a frente. O ideal é começar com os pés intercalados. Isto facilitará a condução, já que a própria fluência da dança acomodará os passos do mesmo modo.
A condução dada pela mão direita faz-se pela mão inteira. Pode-se usar ponta dos dedos ou a região do carpo ou pressionar a mão inteira. Tudo faz parte da dinâmica de comunicação do par.
Os parceiros devem se olhar, mostrando cumplicidade. Cumplicidade sim, mas não é preciso tornarem-se vesgos. A segurança é responsabilidade do homem, que deve observar o salão, olhando por cima do ombro da dama. Ela fará o mesmo se a estatura permitir. Alternadamente, podem se olhar ou até conversar e trocar instruções de condução.
SAMBA

Ao contrário do que muitos pensam, o samba não é um ritmo vindo da África, nem de origem indígena, como já foi publicado em periódicos de dança de sa salão. Ele é legitimamente brasileiro, com grande influência da cultura negra, mas também com características de músicas européias da época. Mais do que um ritmo, o samba tornou-se a própria identidade musical brasileira.
Sua história é controvertida, os registros são precários, mas sabe-se que, a partir de 1870, por influência e mistura do lundu, polca, habanera, tango (brasileiro), maxixe (reprimido e excomungado pelos padrões burgueses da época), ritmos percussivos de origem africana como o batuque, começaram a aparecer músicas já muito próximas do que hoje conhecemos por samba. Apesar das discussões se este seria realmente um samba, "Pelo Telefone" (de Donga e Mauro de Almeida) é considerado oficialmente o primeiro samba gravado no Brasil, em 1917. Quanto ao nome, alguns acreditam que o termo "samba" era usado pelos escravos para designar uma dança. Outros afirmam que o termo vem de "semba", termo africano que significa "umbigada", gesto típico das danças do batuque. Há ainda outras correntes, outras versões.

A pesquisadora Marília Trindade Barbosa da Silva acredita que por trás de toda escola de samba existe um terreiro de macumba. Nesses terreiros eram cultivados e desenvolvidos os alicerces do samba. Uma das casas mais famosas era da baiana Tia Ciata, no Rio de Janeiro. Lá se reuniam Sinhá, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres e muitos outros nomes de destaque. Tia Ciata é um mito da cultura popular brasileira: uniu o sagrado e o profano, reuniu brancos e negros, mesclou cantos e danças com o prazer e com a fé. Sua casa foi um dos principais focos de resistência da cultura negra e de sua propagação.
Na segunda metade dos anos vinte, o samba toma impulso com o rádio e estimula a criação das escolas de samba. Em quase oito décadas de existência oficial, o samba evoluiu e se ramificou para várias formas, onde estão incluídas o partido alto, o samba de morro, o samba de breque e muitos outros.
Para se aprofundar no assunto, procure os seguintes autores: Marília T. Barbosa da Silva, Ary Vasconcellos, Lygia Santos, Luiz Carlos Mansur, Sérgio Cabral, Eneida Moraes, Marcelo Moraes, José Ramos Tinhorão e Tárik de Souza.
TANGO

"Portenhos são italianos que falam castelhano, pensam que são ingleses e gostariam de ser franceses", essa era uma definição corrente no início do século, época em que era "de rigueur" uma visita a Paris.
O tango envergonhava as comunidades argentinas na Europa; tanto que em 1913, o embaixador Enrique Larreta baniu o tango da embaixada argentina, chamando-o de "dança exclusiva para casas de má reputação e classes mais baixas". O tango sempre foi associado ao machismo, à agressividade sexual e à prostituição. Os diplomatas passavam vergonha por isso.
Na Argentina, por outro lado, os portenhos estavam a um só tempo surpresos e horrorizados com o que Paris fazia com o tango: lá tentavam transformá-lo em dança de sociedade, descrito pelos jornais de Buenos Aires como "algo meio mouro meio gaucho" ou como "dança do ventre à dois, com contorções exageradas". Ou ainda: "pode-se pensar que se está assistindo um casal de árabes sob influência de ópio".
Por volta de 1920, passava-se uma moda cheia de "caprichos". Os parisienses esqueceram os passos de tango e o trocaram por outras danças. A partir de então, era mais fácil encontrar o tango em competições do que em clubes noturnos.
Apesar de seu declínio na Europa, o tango entrava em sua "época de ouro" na Argentina, já amplamente aceito então por todos as classes, mesmo as mais refinadas. Para esses últimos, tornou-se mais suave, passando a ser chamado de "tango de salão". O tango, em todas as suas formas, seja para salão, show, "contemporâneo" ou quaiquer híbridos, sempre conquistou não só aos turistas, mas aos amantes da música e da dança.
Surgiram desde o início mitos distorcidos, variantes e interpretações que desviaram esta dança de seu caminho original. O tango de salão (salões de baile) não tem saltos, nem movimentos espalhafatosos. Distancia-se, portanto, do tango-show, mais conhecido e apreciado pelos leigos. O tango de salão não é combinado. Cabe ao parceiro conduzir sua dama, obtendo da mesma acompanhamento harmonioso. Em outras palavras, não há necessidade de se combinar previamente sequências e "sinais" para figurações.


C.Salvagni e Antonio C. Votta (in m.)

O tango de salão está ligado ao lazer, ao sentimento de se ouvir e interpretar a música e, enfim, à arte de exprimi-los.
Em contra partida, o tango-show (e de competição) agrega a necessidade de raciocínio rápido, ação e reação, uma natureza racional, exigente e perfeccionista. Pode conter "pas-de-deux" ou acrobacias; é coreografado e exaustivamente ensaiado. A maioria dos bons dançarinos têm conhecimento de ballet clássico para aperfeiçoar a técnica. Isso porque o entendimento entre os parceiros deve ser perfeito, pois, devido à velocidade e precisão de movimentos, a possibilidade de quedas e contusões é acentuada.
Há quem chame os números modernizados de "dança contemporânea", por se fastarem demasiadamente do tango-danza tradicional.

tango-danza
Buenos Aires