Para ententer o processo da inserção do samba nas danças de competição é preciso começar a análise no inicio da dança esportiva, no momento histórico em que o samba foi inserido no universo do Ballroom Dancing International.
Causa muita estranheza nos brasileiros o formato do samba dançado internacionalmente, nas competições/demonstrações de dança esportiva.
Entre os dançarinos, fica o desejo de mostrar como é o samba original, nascido, criado e desenvolvido dentro do Brasil. “Como os estrangeiros puderam desrespeitar tanto nossa cultura?” Essa é a pergunta que ouço constantemente.
É preciso lembrar que há uma enorme variação em termos de samba, pensando
(1) em música e dança, (2) em regiões do Brasil, (3) em diferentes épocas e modas,
(4)em linhas de ensino e perfis de professores. Com certeza difícil para um brasileiro conhecer e dominar tudo, imagine para um estrangeiro! Totalmente distante de alguma unanimidade.
Para entender o processo da inserção do samba nas danças de competição, é preciso começar a análise no início da dança esportiva, no momento histórico em que o samba foi inserido no universo do “Ballroom Dancing” internacional.
Em 1909 foi realizada a primeira competição mundial. Houve em 1929 na Inglaterra, a criação da “Official Board of Ballroom Dancing” (atual British Council of Ballroom nDancing), onde 6 professores consagrados foram chamados para organizar a dança de competição e os syllabi oficiais. Nesse contexto, o maxixe já havia estourado na Europa. Carmen Miranda começou a fazer sucesso em 1931 com a marchinha “Taí”, chegou à Broadway e Hollywood em 1939 para o estrondoso sucesso.
Tal qual a atual influência de modismos na cultura, o que se passou na época não foi diferente: Hollywood deturpava o samba de Carmem Miranda, o Bando da Lua se apresentava vestido de sambista, acrescentando moças vestidas de rumbeiras, Carmen por vezes fazia gestos mais latinizados do que brasileiros. Por um apelo mais vistoso, via-se um caldeirão de danças, ritmos e figurinos que mesclavam culturas de diferentes países, sem dúvida uma “salada” extremamente atraente, comercialmente sedutora.
Imaginando que Carmen Miranda possa ter influenciado também o samba (e a moda musical) no Brasil, é possível concluir que, a partir desse ponto, o samba tenha evoluído numa direção dentro de seu país de origem, e em direção quase oposta nos países europeus. Porque o desenvolvimento de qualquer manifestação ocorre naturalmente, sem balizas, sem a obrigação de ser unidirecional.
No Brasil o samba transformou-se, somou informação e estabeleceu-se, apresentando pequenas variações por questões regionais ou por novos modismos ao longo dos anos. De forma semelhante ao que ocorre no folclore, a dança samba é uma manifestação popular que não é padronizada, organizada ou controlada de alguma forma. Nasce, se desenvolve e se modifica ativamente.
No exterior, a dança esportiva foi estabelecida, criterizada e sistematizada, por esse motivo o samba se manteve quase intacto, com as características de seu início na Europa, somando pequenas alterações.
Fred Astaire foi outra figura de papel marcante nessa história, que decidiu através de seus filmes dançantes, muito do rumo que várias danças tomaram, principalmente o fox.
Graças a um número de Fred Astaire e Ginger Rogers no filme “Flying Down to Rio”, o samba internacional não foi mais o mesmo, pois incorporou movimentos que são praticados até hoje. O casal dançava um maxixe “La Carioca” (com passos característicos e fiéis ao maxixe brasileiro, diga-se de passagem), porém inexplicavelmente Ginger vestia um chapéu de holandesa (!!). Coisas de Hollywood.
Se procurarmos filmes antigos, documentários que mostram o maxixe, veremos muito mais movimentos em comum com o samba internacional do que poderíamos esperar. Não dá para determinar quem influenciou mais, se foi o maxixe ou o samba - precisamos lembrar que o início do maxixe é contemporâneo ao surgimento do samba.

E é por isso que podemos concluir que o samba da dança esportiva é muito mais fiel à nossa cultura do que nossa vã sabedoria poderia supor. Tudo é uma questão de procurar as raízes, os porquês.
(Texto: publicado no jornal falando da Dança – abril 2009)
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